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A cidade de 15 minutos medida em afluência

A cidade de 15 minutos é uma ideia sobre a forma como os bairros urbanos devem funcionar. Para medir se funcionam assim, são precisos dados anónimos sobre a forma como as pessoas se deslocam de facto por eles, recolhidos em grande escala e ao longo do tempo.

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Manhã no centro de um bairro, com uma padaria e uma paragem de autocarro
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Um técnico de planeamento está na esquina de uma rua comercial que, no papel, tem tudo: uma farmácia, um centro de saúde, um supermercado, três cafés, uma biblioteca, uma escola básica. Por qualquer critério convencional, a rua está bem servida, e no entanto parece parada. Os cafés estão meio vazios nas manhãs de semana e a biblioteca regista cada vez menos visitas. Os residentes dizem que o sítio parece morto.

O problema está no que acontece, ou não acontece, entre o mapa e as pessoas que supostamente vivem a 15 minutos dele. Medir a cidade de 15 minutos em afluência serve precisamente para fechar essa distância.

A ideia por trás da cidade de 15 minutos

O conceito é de Carlos Moreno, cientista urbano da Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Moreno formulou-o por volta de 2016: uma cidade funciona bem quando os residentes conseguem chegar às seis funções essenciais da vida urbana (habitar, trabalhar, comprar, cuidar da saúde, aprender e divertir-se) em 15 minutos a pé ou de bicicleta. Os residentes não precisam de longas deslocações diárias nem de carro, e nenhum bairro serve um único propósito a uma única hora do dia.

Paris deu peso institucional ao conceito quando a presidente da Câmara, Anne Hidalgo, o adotou como quadro de planeamento. Depois, a pandemia tornou-o concreto: milhões de pessoas passaram meses a descobrir o que significava, na prática, viver num raio de 15 minutos, para o bem e para o mal.

A distância entre o projeto e a realidade

A cidade de 15 minutos é um conceito de acessibilidade. Os técnicos podem modelá-la a partir de mapas (quantos residentes vivem a menos de 15 minutos a pé de um supermercado?), mas acessibilidade não é o mesmo que utilização.

Um bairro pode estar completo no papel e quase sem vida na prática.

Uma interface de transportes pode ficar numa zona de 15 minutos sem ligar aos destinos a que as pessoas querem de facto chegar.

As decisões de planeamento sobre onde investir, que ruas pedonalizar, onde acrescentar infraestrutura para bicicletas e que espaços comerciais reativar têm de assentar na forma como as pessoas se deslocam de facto. A pergunta passa de «a farmácia fica a menos de 15 minutos?» para «as pessoas vão a pé à farmácia, ou vão de carro à da circular?»

A análise de afluência no centro da cidade parte dessa segunda pergunta. Uma análise de localização assente em dados reais de movimento, e não em dados demográficos modelados, permite testar uma visão de planeamento antes de comprometer o dinheiro.

O que mostram os dados de movimento à escala do bairro

Os fluxos num bairro urbano têm uma estrutura: os percursos que as pessoas fazem por hábito, os pontos onde se juntam e os limites do bairro onde o movimento cai a pique. Têm também um ritmo: picos de manhã, impulsos à hora de almoço, subidas ao fim da tarde, padrões de fim de semana que nada têm a ver com os dias úteis e variações sazonais que mostram se a rua comercial serve de facto a população local ou atrai visitantes de mais longe.

A análise de dados de rede móvel capta tudo isto numa escala que nenhum levantamento manual consegue igualar. À medida que os dispositivos móveis interagem com a infraestrutura das redes 4G e 5G ao longo do dia, essas interações, agregadas e anonimizadas, compõem uma imagem detalhada do movimento num bairro inteiro. Os dados mostram a origem, além do volume: as pessoas que estão na rua comercial vêm do bairro à volta ou de mais longe?

Para as cidades e municípios que decidem sobre pedonalização, dias de mercado ou onde concentrar o investimento de dinamização comercial, a análise de afluência urbana à escala do bairro é uma informação de outra ordem face a uma contagem de tráfego ou a um inquérito. A publicidade exterior e DOOH usa os mesmos fluxos à escala do bairro para avaliar as audiências ao nível da rua.

Avaliar a saúde do comércio de rua

As ruas comerciais por toda a Europa passaram anos a lidar com a passagem para o comércio eletrónico, com mudanças nas lojas âncora e com os efeitos da pandemia. O debate sobre a saúde do comércio de rua tende a ser dominado pelas taxas de desocupação e pelas receitas fiscais das empresas: indicadores atrasados, que confirmam que algo correu mal muito depois de o dano estar feito.

A afluência é um indicador avançado.

Uma rua que perde visitantes antes de perder inquilinos dá aos técnicos de planeamento e às autarquias a oportunidade de reagir enquanto ainda há algo a salvar. Um tempo de permanência a subir enquanto o número de visitantes estabiliza sugere que a oferta está certa e que as pessoas ficam mais tempo. O mesmo número de visitantes com o tempo de permanência a descer conta uma história muito diferente: as pessoas passam sem encontrar motivo para parar.

Os dados disponibilizados por um programa de análise à escala do bairro incluem normalmente o volume por zona, as horas de ponta, as distribuições do tempo de permanência e a análise da área de influência, ou seja, de onde vêm os visitantes. Esta combinação permite responder a uma pergunta a que as contagens de afluência, por si só, não respondem: esta rua serve o seu próprio bairro ou sobrevive graças a visitantes de fora?

A cidade de 15 minutos, medida

A distância entre o ideal de planeamento e a experiência vivida é uma razão para medir o conceito de cidade de 15 minutos, e não para o pôr de lado. Se a visão é um bairro onde os residentes satisfazem as necessidades do dia a dia a uma curta distância a pé, a prova de que isso funciona está na forma como as pessoas se deslocam de facto. Os documentos de planeamento só dizem como deviam deslocar-se.

Medir o pulso

Um bairro saudável tem pulso: um ritmo diário e semanal de movimento.

Vê-se no movimento matinal para as escolas e os transportes, na animação da rua comercial à hora de almoço, no pico depois do trabalho e num padrão de fim de semana que nada tem a ver com o dos dias úteis. Um bairro que perdeu o ritmo, com um padrão plano e sem picos, está a dizer algo que as taxas de desocupação só vão confirmar mais tarde.

Ler esse pulso exige medir os fluxos de forma anónima e em grande escala, e manter um registo longitudinal que mostre a evolução ao longo do tempo. É o único método de contagem de pessoas da Europa aprovado por uma autoridade de proteção de dados que capta o movimento de um bairro sem identificar uma única pessoa que por ele passou. Os dados disponibilizados por um programa deste tipo dão às cidades e municípios as provas de que precisam para planear.

Fontes

  • Moreno, C., Allam, Z., Chabaud, D., Gall, C., & Pratlong, F. (2021). Introducing the “15-Minute City”: Sustainability, resilience and place identity in future post-pandemic cities. Smart Cities, 4(1), 93–111. https://doi.org/10.3390/smartcities4010006

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15 minutos
A pé ou de bicicleta até ao essencial do dia a dia
seis
Funções essenciais da vida urbana

Perguntas frequentes

O que é o conceito de cidade de 15 minutos?

A cidade de 15 minutos é uma ideia de planeamento urbano associada a Carlos Moreno, professor em Paris, desenvolvida por volta de 2016, segundo a qual cada residente deve conseguir chegar ao essencial da vida diária (trabalho, alimentação, saúde, educação, cultura) a 15 minutos a pé ou de bicicleta de casa. O conceito ganhou grande visibilidade depois de a presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, o adotar como quadro de política urbana, e ganhou ainda mais força durante a pandemia, quando viver num raio curto se tornou a norma para milhões de pessoas.

Como se mede se um bairro é uma cidade de 15 minutos?

Em parte mapeando as infraestruturas para verificar se os serviços existem fisicamente, mas também medindo como as pessoas se deslocam de facto. Se os residentes continuam a atravessar a cidade de carro para tarefas do dia a dia, apesar de haver serviços no bairro, este não atingiu na prática o estatuto de 15 minutos. Os dados de afluência e mobilidade à escala do bairro mostram os padrões reais de movimento por trás da acessibilidade teórica.

O que é a análise de dados de rede móvel e como mede os fluxos urbanos?

A análise de dados de rede móvel agrega os sinais dos dispositivos móveis quando estes interagem com a infraestrutura das redes 4G e 5G. Como quase toda a gente anda com telemóvel, este método capta o movimento num bairro inteiro sem câmaras, sem aplicações e sem identificar ninguém. Mostra o volume e a direção dos fluxos entre zonas, as horas do dia em que uma rua comercial tem mais movimento e como esses padrões mudam com as estações ou depois da abertura de um novo empreendimento.

Os dados de afluência ajudam a avaliar a saúde do comércio de rua?

Sim. Os dados de volume e de tempo de permanência mostram que partes de uma rua comercial têm movimento, quais estão em declínio e quais recuperam depois de intervenções como a pedonalização, a chegada de uma nova loja âncora ou um evento público. Acompanhar isso ao longo de meses e anos dá aos técnicos de planeamento e aos proprietários provas para decidir investimentos, sem terem de depender de dados fiscais das empresas, que chegam com anos de atraso.

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