Insights

O efeito Gruen: a arquitetura da compra por impulso

Victor Gruen inventou o shopping center moderno para dar uma praça pública aos subúrbios. O que os incorporadores fizeram do seu projeto, que ele depois renegou, mostra como o espaço pode ser usado para dissolver a intenção de quem vai às compras.

6 min de leitura

Corredores sinuosos e vitrines em uma galeria comercial
Nesta página

Você vai a uma loja comprar uma coisa só: uma lâmpada, uma panela, um enchimento de edredom. Uma hora depois sai com quatro sacolas e a vaga sensação de que algo aconteceu com a sua tarde, sem saber dizer em que momento a tarefa virou um passeio de compras mais longo e mais caro.

Essa experiência tem nome, efeito Gruen, e o nome vem de um homem que se envergonhava dela.

O arquiteto que queria uma praça

Victor Gruen nasceu em Viena em 1903, formou-se arquiteto ali e fugiu para os Estados Unidos em 1938, depois que a Alemanha nazista ocupou a Áustria. Acabou se estabelecendo na Califórnia e começou a projetar espaços comerciais: primeiro lojas pequenas, depois algo mais ambicioso.

Em 1956 ele concluiu o Southdale Center, perto de Minneapolis, muito citado como o primeiro shopping center totalmente fechado e climatizado dos Estados Unidos. A visão de Gruen era declaradamente cívica. Os invernos rigorosos de Minnesota dificultavam a vida pública ao ar livre durante meses, e Gruen queria dar às comunidades dos subúrbios um lugar de encontro coberto, para andar a pé e protegido do tempo, uma versão da rua de pedestres ou da praça de mercado europeia.

O shopping que Gruen imaginou tinha serviços comunitários, arte pública e espaços abertos. O que os incorporadores entregaram era mais enxuto e mais focado: um circuito de lojas otimizado para o gasto.

A transferência

O termo “transferência de Gruen” (também chamado de efeito Gruen) descreve o momento exato em que o consumidor, ao entrar em um ambiente de varejo propositalmente imersivo, perde de vista a sua intenção original e passa para um estado mais aberto, exploratório e propenso a comprar. Desde Southdale, o projeto de shopping centers refinou isso em um conjunto de regras espaciais que qualquer formato de varejo fechado pode aplicar. A transição é em parte psicológica (ambiente novo, leve sobrecarga dos sentidos, estímulos de prazer) e em parte espacial: o próprio layout é feito para dificultar a navegação com objetivo, e o cliente passa do modo missão para o modo passeio.

A manipulação é arquitetônica. Plantas irregulares, ausência de janelas, pouca luz natural e circuitos sem atalho claro para a saída eliminam as referências externas que mantêm o cliente orientado. Quando ele está perdido o suficiente, para de seguir a lista e começa a reagir ao que está à sua frente.

O que Gruen disse de fato sobre isso

Ele detestava. Em um discurso em Londres, em 1978, Gruen renegou publicamente os shopping centers e disse à plateia:

“Eu me recuso a pagar pensão por esses empreendimentos bastardos.”

Ele tinha projetado um equipamento cívico. O que foi construído e copiado com o nome dele era, na sua própria avaliação, uma máquina de separar as pessoas do seu dinheiro. Ele passou os últimos anos envolvido em renovação urbana, tentando recuperar, nos centros das cidades de verdade, o tipo de vida pública que esperava que os shoppings fechados pudessem oferecer.

O exemplo clássico: a IKEA

Nenhum varejista aplicou a lógica espacial do efeito Gruen de forma mais sistemática, ou mais aberta, que a IKEA. As lojas são construídas em torno de um percurso obrigatório de mão única, que a IKEA chama de Main Aisle (corredor principal), passando por toda a linha de produtos antes de devolver o cliente à saída. Existem atalhos, mas não são sinalizados e passam despercebidos com facilidade.

O professor Alan Penn, da Bartlett School of Architecture da UCL, estudou o projeto espacial da IKEA e descreveu como o percurso em zigue-zague logo faz o cliente perder a noção de onde ficam as saídas, o que na prática o obriga a percorrer a loja inteira.

Citado pela agência de notícias sueca TT em 2011, Penn disse que o layout era “feito com tanta astúcia que tenho pouca dúvida de que seja intencional” e acrescentou que “o caminho para a saída está sempre atrás de você”.

A própria IKEA fala em “compras não planejadas”, embora tenha rejeitado as conclusões de Penn. São as coisas que não estavam na lista, mas apareceram no percurso num momento em que o cliente estava desorientado o suficiente, e relaxado o suficiente, para pegá-las, como a travessa ao lado dos copos, ao lado das almofadas decorativas.

Leitura relacionada: um percurso no sentido anti-horário faz as pessoas gastarem mais?

O que isso significa para o projeto da loja

O efeito Gruen não é exclusivo das megalojas. Varejistas menores usam versões da mesma lógica: um layout que conduz o cliente, um percurso que favorece o acaso em vez da eficiência e um ritmo de espaços que alterna zonas de produto concentradas com áreas mais lentas e de ambientação. O objetivo é sempre o mesmo: aumentar o tempo de permanência, quebrar a compra linear de missão e ampliar a quantidade de produto que é vista. Nada disso funciona nos primeiros metros, porém, onde a zona de descompressão na entrada impede que quem acaba de chegar registre qualquer coisa.

Funciona, mas com ressalvas importantes. Clientes que percebem que estão sendo conduzidos começam a se sentir manipulados, como observou Paco Underhill.

Exagere no efeito Gruen e o resultado são reclamações.

Administradoras de shopping e proprietários de imóveis que usam o tempo de permanência como indicador principal de desempenho conhecem bem essa tensão: a ideia é que os visitantes fiquem mais e explorem mais, sem se sentirem presos.

O ponto ideal é um layout que recompensa a exploração sem castigar quem quer se orientar, em que achar algo inesperado é um prazer em vez de efeito de uma confusão arquitetônica.

Medir a deriva em vez de adivinhá-la

Se você projeta para o efeito Gruen por intuição, não tem como saber quais partes do espaço estão gerando a deriva e quais estão simplesmente sendo ignoradas.

O mapa de calor da loja, feito com dados anônimos de trajetos por Wi-Fi, mostra as duas coisas: onde os clientes se movem com objetivo (rápido, direto, pouco tempo de permanência) e onde passam para o modo mais lento e receptivo que gera compras não planejadas. Você vê se a mudança de layout feita três meses atrás aumentou o engajamento na zona para a qual foi pensada ou se os clientes estão indo parar em outro lugar.

A contagem de pessoas por Wi-Fi capta isso de forma agregada, sem câmeras, sem identificar pessoas e sem registrar nomes. Os dados que você recebe incluem tempo de permanência por zona, distribuição de trajetos e fluxos de entrada nas diferentes áreas do salão, para que você identifique os espaços onde o efeito Gruen está funcionando e otimize em torno deles de propósito, em vez de seguir o folclore.

Projetar para a deriva de propósito

Victor Gruen queria dar uma piazza aos subúrbios. O que ele produziu (sem querer, e para seu próprio desgosto) foi uma linguagem de projeto para transformar tarefas em passeios de compra por impulso. Essa linguagem hoje está em toda parte, do percurso de mão única da IKEA aos térreos labirínticos das lojas de departamento. A queixa de Gruen era que o espaço tinha deixado de servir às pessoas, mais do que o fato de elas gastarem dinheiro, e essa tensão continua presente em cada decisão de layout.

Dados anônimos e agregados de trajetos, vindos da infraestrutura que o seu espaço já usa, mostram se o efeito está funcionando, para que você projete de forma deliberada em vez de confiar em superstições confortáveis.

Fontes

Quer ver como isso funcionaria no seu espaço?

Agendar demonstração Veja os dados que você recebe
1956
Primeiro shopping center totalmente fechado dos EUA
1978
Ano em que Gruen renegou os shoppings

Perguntas frequentes

O que é o efeito Gruen?

É o momento em que o cliente, cercado por um ambiente de varejo imersivo e propositalmente desorientador, perde de vista o que veio fazer e fica aberto a compras não planejadas. O efeito leva o nome do arquiteto austro-americano Victor Gruen, que projetou o primeiro shopping center totalmente fechado dos Estados Unidos, mas depois lamentou em público o rumo manipulador que o formato tomou.

Quem foi Victor Gruen e por que o efeito leva o nome dele?

Victor Gruen (nascido Viktor Grünbaum, em Viena, em 1903) emigrou para os Estados Unidos em 1938 e projetou o Southdale Center, perto de Minneapolis, em 1956, muito citado como o primeiro shopping center totalmente fechado e climatizado. A ideia original dele era cívica: uma praça pública coberta, para andar a pé, nos subúrbios. Os incorporadores levaram os seus princípios de projeto para formatos pensados só para o consumo, e Gruen acabou renegando o resultado por completo.

Victor Gruen apoiava a manipulação associada ao seu nome?

Não. Em um discurso em Londres, em 1978, Gruen renegou publicamente os shopping centers e disse: 'Eu me recuso a pagar pensão por esses empreendimentos bastardos.' Ele tinha projetado um espaço cívico e ficou com o crédito por uma máquina de vendas. O efeito que leva o seu nome descreve exatamente aquilo contra o que ele se colocava.

Como medir se o efeito Gruen está funcionando no meu espaço?

Observe o tempo de permanência e as visitas não planejadas às zonas. A análise anônima de trajetos por Wi-Fi mostra em quais áreas os clientes entram com intenção aparente (indo direto, andando rápido) e em quais eles vão parar sem querer (andando mais devagar, mudando mais de direção, fazendo pausas mais longas). Essas zonas de deriva são onde o efeito Gruen está agindo, e saber onde elas ficam permite otimizá-las de propósito em vez de por instinto.

Meça onde os clientes vagueiam e se demoram

Agende uma apresentação de 30 minutos e veja como dados anônimos de trajetos mostram as zonas onde a intenção se dissolve e o tempo de permanência aumenta.

Agendar demonstração